10 de fevereiro de 2012

Aquarela

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Olhar baixo, andar desconfiado, medo de tropeçar. Sempre em linha reta, sem olhar para os lados.
Toda angústia do peito extravasada no próprio corpo todo arranhado. Toda sua vontade de fugir, mas não para algum lugar específico, sabia que mudar não traria reais mudanças. Queria ir embora de si, se possível por tempo indeterminado. Se possível, até aprender a esquecer e mudar, de fato.
Já não acreditava em tudo o que falava, palavras prontas para que ninguém reclamasse. Tentativas de não mostrar nada, assim seria mais fácil e continuaria seguindo nos caminhos contrários aos seus erros. Nos caminhos mais fáceis.
Não porque fosse fraca, mas porque toda sua coragem vacilava quando de frente ao desmoronamento de toda expectativa que criara. Virava as costas, e deixava que caísse, procurando por outro lugar e tentando não lembrar... Sem se quer ter tentado olhar a frente dos destroços.
Preferia negar, uma hora o tempo aparece e faz tudo parecer pequeno e ela voltaria no lugar sem medo. Como acontecera nas outras vezes.
Tempo esse que muitas vezes apenas fingia ter feito a diferença. Quem sabe para tentar fazê-la ter confiança, quem sabe por simples brincadeira.
Ao longo de toda sua caminhada, seus erros foram se acumulando e sequer notou. Andava sempre acreditando que de fato tinha mudado. Mas bastava estar sozinha, em quatro paredes, para reconhecer seu regresso de algo que nunca progrediu.
Reconhecia seus defeitos, mas não tinha idéia de como mudá-los, melhorá-los. Então aprendeu a seguir com tudo, desse jeito mesmo, tentando indiferença e guardando o máximo. Mesmo se tentasse falar, não saberia o que dizer. Escrever sempre foi mais fácil.

6 de janeiro de 2012

Duas décadas

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Enquanto isso seus olhos observavam as estrelas, o céu de sempre. Parou porque seu cansaço era visível, seus lábios estavam secos, sua face borrada e seu cabelo pouco sedoso.
Agora seria como se tudo fosse diferente, igual das outras vezes. Voltou sua cabeça para trás, para todo caminho percorrido, todas as flores. Aqueles famosos baobás ela havia conseguido arrancar, alguns persistiam intactos, grandiosos as vezes, mas aprendera a não importar-se.
Voltou novamente para frente; como em qualquer momento tinha apenas uma escolha e duas estradas. Observou novamente o céu como quem busca ajuda. Este permaneceu em silêncio, assim como das outras vezes. Isso já não a incomodava.
Sentou. Sabia que o tempo corria, mas tinha certeza que agora sua ponderação valeria a pena. Pensar, refletir, relembrar e comparar.
Sentiu toda brisa batendo em suas costas, todo seu medo se dissipando. As recordações já não doíam mais.
Continuou sentada, a ação não demoraria muito, apenas parou para refletir por mais alguns instantes. Apenas descansou de si mesma antes de voltar.

10 de agosto de 2011

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Seus cabelos oleosos demonstravam seu ar de cansada. Olhos fixos sobre o espelho manchado, desregulado que não mostrava mais nada.
Ali ficou parada na mesma posição por horas, tentando procurar seu olhar. Perguntando-se de sua vida e se valeria apena continuar.
Agora a situação mudara, já não encontrava nenhuma perspectiva, nenhum motivo mais. Todos já escorreram pelos dedos. Nenhuma solução, nada.
Do que adiantaria continuar se ninguém a nota? Há um passo do que queria, perdera. Desabara, desistira, nenhuma pessoa do seu lado para ajudá-la a retirar os destroços. Continua para quê? Para quem?

Por ela, para ela.

5 de junho de 2011

...

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Troche


Haveria necessidade de tudo aquilo?
Agora o medo assolava seu quarto nas paredes escurecidas pelo odor de sangue fresco.
Olhava a sua volta e não entendia como e porquê. Não teria nenhum motivo aparente para aquela ação.
Suas mão sujas ao lado do corpo deitado no chão, incriminaria.
Seus olhos já não expressavam mais nada. Era um vazio, perdido naquelas manchas que quase pareciam uma arte moderna.
Estava a espera de quê? De quem? Seria mais fácil, e inteligente, fugir. Mas suas pernas já não queriam obedecê-las. Estava imersa no fundo de sua mente, protegida de qualquer mal que qualquer um pudesse fazer.
A qualquer instante alguém entraria naquele quarto. Seu desejo era fotografar a imagem do desespero de quem quer que fosse que a descobrisse.
Seu rosto fez o primeiro movimento consciente: sorriu. Demonstrou uma felicidade quase infantil. Quase, porque seus olhos misturaram-se com os respingos de sangue que estavam em seu rosto.

28 de maio de 2011

Quimera

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Gianluca Mattia

A realidade se confunde com o sonho.
Não havia mais nenhum discernimento do que foi tocável. Agora, dentro de si, a agonia passara para dar lugar a algo novo.
Algo como um sanatório pessoal. A tentativa de se curar da dor tangível através de uma felicidade ilusória, mas tão real quanto outra qualquer.
O que distinguiria sua felicidade para o campo da ilusão? Quem e por que teria coragem de dizer que era menos verdade o sorriso dela?
A distinção só será importante para quem observa de fora.

10 de março de 2011

Precipício

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E desabaria no precipício. Não era algo preferível, mas inquestionável seria o sabor do vento cru no seus lábios desfalecidos pelo susto.

Até que ponto aguentaria tudo sem gritar ou chorar? Quando seria seu último pensamento? O que seria ele? Que esquecera alguma luz acessa no apartamento e isso acarretaria em uma alta contam no final do mês? Ou iria filosofar a respeito do que seria viver com dignidade? Amor; seria esse o último suspiro?

Tudo passou desapercebido pelo chão, que apenas se enrubesceu. A terra não demorou para engolir e triturar o que lhe ofereceram como seu. Urubus, formigas e decompositores já sobrevoavam e rondavam os suspiros mórbidos de alguém ainda vivo, mas sem forças.

A dor fora imobilizada pelo cérebro, voos que destruíam toda sua pele já não era desesperador. Formigas que atacavam seu rosto, como quem despedaça aos poucos, já não faziam diferença. Seu globo ocular escureceu, mas seus olhos continuavam claros para o que se passara ali. Estudara com afinco tudo ao redor, seria salvo, memorizado, decodificado. Ganharia mais um quadro para sua lembrança, mais um passado perturbador, mais um desespero. Guardaria.

8 de março de 2011

Carl Sagan

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"É muito melhor aceitar a dura verdade do que uma fábula tranquilizadora. Se sonhamos com um propósito cósmico, então que encontremos sozinhos um objetivo digno."