10 de março de 2011

Precipício




E desabaria no precipício. Não era algo preferível, mas inquestionável seria o sabor do vento cru no seus lábios desfalecidos pelo susto.

Até que ponto aguentaria tudo sem gritar ou chorar? Quando seria seu último pensamento? O que seria ele? Que esquecera alguma luz acessa no apartamento e isso acarretaria em uma alta contam no final do mês? Ou iria filosofar a respeito do que seria viver com dignidade? Amor; seria esse o último suspiro?

Tudo passou desapercebido pelo chão, que apenas se enrubesceu. A terra não demorou para engolir e triturar o que lhe ofereceram como seu. Urubus, formigas e decompositores já sobrevoavam e rondavam os suspiros mórbidos de alguém ainda vivo, mas sem forças.

A dor fora imobilizada pelo cérebro, voos que destruíam toda sua pele já não era desesperador. Formigas que atacavam seu rosto, como quem despedaça aos poucos, já não faziam diferença. Seu globo ocular escureceu, mas seus olhos continuavam claros para o que se passara ali. Estudara com afinco tudo ao redor, seria salvo, memorizado, decodificado. Ganharia mais um quadro para sua lembrança, mais um passado perturbador, mais um desespero. Guardaria.

0 opiniões: